Linhas orientadoras do Padroense estão bem definidas. Vamos ser mais ambiciosos

Padroense. Entrevista com Germano Pinho

 

Germano Pinho, em conversa com o JM analisa o dia a dia do clube e revela quais os projectos para o futuro. Sobre a política desportiva instituída na colectividade, salienta o realismo, o rigor e a sensibilidade como características fundamentais para poder levar o barco a bom porto. Desportivamente, o objectivo passa por atingir os lugares cimeiros, se possível a subida de divisão, mas sempre de uma forma sustentada. 

 

JORNAL DE MATOSINHOS – Que balanço faz da actividade do Padroense?

GERMANO PINHO – Todos os biénios há uma mudança na direcção, e obviamente quando começa a trabalhar está sempre motivada e forte, refrescada com novos elementos que a nosso ver vêm dar mais consistência, de maneira que ainda estamos naquela fase inicial de fazer trabalho. Passada a primeira fase, os primeiros projectos começam a tomar forma, a assentar, e depois o tempo dirá se há condições para desenvolver alguns projectos que temos em mente. Estamos esperançados nisso, mas essencialmente estamos motivados num trabalho positivo no sentido de criarmos condições para que o Padroense estabilize pelo menos na Divisão de Honra, e que vá consolidando os meios essenciais para poder eventualmente atingir objectivos desportivos mais amplos do que os actuais. Para que qualquer política desportiva tenha êxito, é fundamental que o clube tenha sucesso na vertente económica e financeira. Nessa parte temos sido sempre rigorosos, e agora redobradamente rigorosos porque a conjuntura que atravessamos é desfavorável, de maneira que tivemos que apertar ainda mais o cinto. No entanto continuamos com a esperança de que com alguns ajustamentos necessários para dar o equilíbrio que o clube precisa, conseguiremos levar o barco a bom porto.

 

JM – Os protocolos estabelecidos com outras instituições têm-se revelado positivos?

GP – Negociamos e concluí-mos alguns protocolos que são instrumentos fundamentais para o equilíbrio do nosso clube. Na tomada de posse disse que os clubes da dimensão do Padroense só são viáveis se tiverem um apoio forte a nível de outras instituições. Em termos de massa associativa as coisas são o que são. O Padroense é um clube com 1200 filiados, e se transformarmos o valor directo da comparticipação na vida do clube, representa pouco mais do que a manutenção da água, luz, telefone e empregado. Por conseguinte, para ter condições de desenvolvimento temos que nos aliar a quem tenha capacidades para nos dar apoios, quer seja a nível de empresas, de sponsors, autárquicos, parcerias com outras colectividades... O campo é vasto, o que é preciso é ter a imaginação suficiente para captar esse tipo de apoios ou parcerias, introduzi-las, desenvolvê-las, consolidando aquilo que se vai conseguindo no dia a dia.

 

JM – De que constam os protocolos com o F.C. Porto e com o Leixões?

GP – Dentro desta perspectiva conseguimos um protocolo com o F.C. Porto, há cerca de dois anos. No primeiro ano o F.C. Porto foi um parceiro muito útil, e dá-me a sensação que nessa primeira fase fizeram uma experiência para ver até que ponto o Padroense corresponderia às expectativas que eles também teriam nesse protocolo. Penso que ficaram satisfeitos, nós também ficamos, e a comprovar está o facto que o protocolo foi renegociado, de alguma forma ampliado, e já vamos no terceiro ano. O acordo está no terreno e a produzir efeitos. O Padroense, actualmente, a nível de equipamentos no seu parque desportivo está melhor, e deve-se essencialmente à colaboração do F.C. Porto. A nível desportivo, no âmbito desse protocolo, atingiu o patamar máximo na sua história, que foi chegar à II fase de um campeonato nacional, e estivemos a um jogo da fase final. De maneira que o que temos de fazer é fazer todos os possíveis para tentar que o protocolo se mantenha. Há perspectivas até, de a médio prazo, se alargar a outros escalões na formação. O protocolo com o Leixões está negociado, acordado e já está no terreno, já há jogadores do Leixões no Padroense, o que quer dizer que é um protocolo irreversível, mas ainda não foi feita a cerimónia da sua assinatura. Como tal é um pouco prematuro estar a abordá-lo em profundidade. No entanto o que fica de essencial é o desejo dos dois clubes de se ajudarem mutuamente, dando cada um aquilo que, eventualmente, tenha para dar ao outro, embora este protocolo esteja mais direccionado para o futebol sénior.

 

JM – O que é que, por exemplo, o Padroense tem para dar ao Leixões e vice-versa?

GP – Primeiro, o que o Padroense tem para dar ao Leixões é a colaboração que o dia-a-dia exigir e permitir. O Padroense poderá ser, e espero bem que assim aconteça, um salão de ensaio para alguns atletas do Leixões. Como é sabido o Leixões tem, na área da formação, um vasto campo de recrutamento, que mais nenhum clube do concelho tem, mas também é sabido, que actualmente é uma equipa altamente profissionalizada, logo não é fácil a um miúdo com 19 anos atingir de imediato o escalão sénior do Leixões, mesmo que tenha qualidade para lá chegar. Logo, é muito importante nesta fase da vida do atleta que o Leixões tenha um clube de retaguarda que possibilite que esse jogador continue a sua fase de crescimento, jogando. O Padroense, tendo consciência das suas limitações e da sua dimensão é um clube que pode proporcionar ao Leixões esse enquadramento, ou seja, possibilitar-lhe que o atleta cresça, que o esteja ali a semear mais valias em termos de futuro, e ao mesmo tempo, proporcionar ao Padroense jogadores numa área de qualidade e com uma noção de escola de futebol diferente daquela que tem aqui o Padroense. De maneira que ambas as colectividades podem ter benefícios desta ligação.

 

JM – Mas esta política vai implicar resultados desportivos positivos para o Padroense, como por exemplo lutar para atingir o mais breve possível a III Divisão Nacional?

GP – Está implícito que ao recorrermos e ao termos a possibilidade de ter no nosso plantel jogadores da formação do Leixões, vamos ser mais ambiciosos. Sempre que tenho oportunidade de falar aos meus jogadores tenho procurado incutir um pouco de ânimo, responsabilidade e ambição porque esta coisa de jogar semanalmente para o ponto. Ganhar os jogos em casa, fazer um pontito aqui e ali, isto nem é carne nem é peixe. Não é nada saudável em termos de realização pessoal e do clube, de maneira a que ao aceitarmos esta ligação ao Leixões, está implícita uma forma de ambição. E estamos convencidos que com ajuda que vem de lá, com uma política de aquisições realista, procurando trazer para o clube, poucos jogadores, mas de qualidade, acho que temos condições para poder atingir os lugares cimeiros da Divisão de Honra. Se vamos conseguir isso ou não, é relativo, mas esse é o objectivo, e não há que ter medo das palavras. Este ano queremos disputar os primeiros lugares, não posso dizer que vamos subir de divisão pela certa, mas a equipa que construímos é para andar lá por cima. Isto também implica algum esforço financeiro e humano, e se não tivéssemos esse objectivo, não valeria a pena.

 

JM – Qual o orçamento do Padroense para este ano?

GP – O orçamento da equipa de futebol anda na ordem dos 60 mil euros por ano. Para um clube da nossa dimensão é muito. Aliás, muitas pessoas ao lerem isto podem pensar que é ridículo um clube gastar doze mil contos e estar a pensar subir de divisão. Se calhar há por aí clubes de pouco mais dimensão que nós que gastarão quase isso num mês. Mas achamos que dentro deste patamar, com algum bom senso, equilíbrio e rigor, há condições para alcançar os objectivos. O orçamento geral do clube cifra-se na ordem dos 200 mil euros. Se repararmos há clubes em que o futebol representa cerca de 2 terços do orçamento, enquanto que no Padroense é cerca de um terço. O que quer dizer que privilegiamos outros factores. Procuramos ter qualidade nas instalações, nos transportes, apoio médico, etc., ou seja, toda uma estrutura em volta do clube que nos absorve uma parte substancial dos nossos recursos. Se eventualmente, virássemos todas as nossas intenções para o futebol, com certeza que já tínhamos subido de divisão, só que íamos lá em cima ver como era a III Divisão e voltávamos no ano seguinte. Estamo-nos a preparar para, quando chegarmos à III Divisão ter condições para nos mantermos.

 

JM – Quais as grandes fontes de receita do Padroense?

GP – Creio que são idênticas à da grande maioria dos clubes. Primeiro ponto e a mais importante pelo significado que tem, é da sua massa associativa, não tanto pelo valor em si, mas pelo que é de estimulante. Sentirmos o apoio dos sócios, mesmo num volume relativamente pequeno em termos de valor, transporte um grande simbolismo, carinho, apoio e disponibilidade. Para além disso, temos os jogos, a publicidade, que é uma área que procuramos permanentemente acompanhar e dinamizar, o apoio das autarquias que nos vai sendo concedido, pelo menos para as obras de manutenção das infra-estruturas, e um sponsor, que é uma empresa sólida no mercado. Tudo isso junto, aliado à disponibilidade das pessoas, e também ao bolso de alguns dirigentes, vai dar o bolo final, permitindo-nos ter o que hoje temos, com as contas equilibradas. Eventualmente vamos também desenvolvendo algumas iniciativas pontuais, sem carácter permanente, que nos permite encaixar mais algum dinheiro.

 

JM – A construção da nova bancada viria ajudar à economia do clube?

GP – De alguma maneira tive-mos necessidade de suspender provisoriamente o problema da bancada porque, neste momento, a conjuntura é completamente desfavorável para qualquer projecto desse tipo. E como para podermos desenvolver esse projecto necessitaríamos de comercializar as lojas que fossem feitas no baixo da bancada, e esta alturas não é nada favorável para esse tipo de negócios. Aliado a isso, alguma dificuldade em aprovar o projecto da forma como o queríamos aprovar, achamos melhor para-lo temporariamente e eventualmente vamos retomá-lo mais tarde.

 

JM – Outros dos grandes projectos desta direcção é a construção de um pavilhão...

GP – Isso é um sonho de todas as pessoas ligadas ao Padroense, especialmente aquelas que estão chegadas ao andebol. Em tempos, tivemos a promessa do responsável máximo da nossa autarquia, de que quando fosse construída uma escola, (que irá ser edificada junto ao estádio), o pavilhão seria cedido ao Padroense em horário pós-escolar. Isso seria a solução ideal para o clube, mas sabemos que quando envolve dinheiro público e interesses de freguesias, umas junto ás outras, nem sempre as coisas se realizam da forma como esperamos. De maneira que o ideal passa a ser o Padroense construir o seu próprio pavilhão. Mas se repararmos, hoje, do Minho ao Algarve, não há nenhum clube a construir um pavilhão às suas próprias expensas. E não há porque isso hoje é uma tarefa entregue às autarquias. Temos esperança que num médio prazo, quando conseguirmos incorporar no nosso património a faixa de terreno do topo sul do campo, e que já nos foi prometida, vamos criar ali uma zona que poderá permitir construir o sonho do Padroense. Seria a maneira de terminar um mandato em glória comigo próprio.

 

JM – Dessa forma reduzia algumas despesas no clube?

GP – Naturalmente que sim, porque mais de setenta por cento da despesa do andebol é para alugar pavilhões. Tenho a certeza que se resolvêssemos este problema do pavilhão iria permitir que a secção se desenvolvesse de uma maneira extraordinária e eventualmente poderia permitir que o clube até pensasse noutras modalidades indoor, além de dar condições de numa área destas, como o Padrão da Légua, para os mais de 30 mil habitantes, praticar desporto.

 

JM – Como é que estão as relações do Padroense com a Junta de Freguesia da Senhora da Hora?

GP – Simplesmente não existem. Temos um excelente entendimento com Leça do Balio e S. Mamede de Infesta, boas relações com Custóias, embora não haja uma grande proximidade e não me parece que a pessoa que neste momento está à frente de Custóias seja muito dada a apoios aos clubes, mas pelo menos tem sempre uma palavra amiga. Agora, com a Senhora da Hora, lamentavelmente, não existem, e ainda por cima é a freguesia onde está instalada a sede e o estádio do Padroense. Aliás, penso que o senhor presidente da Junta de Freguesia da Senhora da Hora, tem analisado mal a sua ligação ao desporto, e pelo menos ao Padroense. Não queremos ser tratados nem melhor nem pior do que qualquer outro. Se analisarem bem, o Padroense é o maior e o mais antigo clube da Senhora da Hora, é o que tem mais sócios, o que está na divisão mais elevada e o que tem o melhor parque desportivo. É incompreensível como é que um clube da dimensão do Padroense, que é o quarto maior clube do concelho, nunca mereceu a atenção do presidente da Junta de Freguesia da Senhora da Hora, nunca teve uma palavra para connosco. Enviámos-lhe uma série de convites para as mais diversas cerimónias, e não houve uma vez que respondesse, pelo menos para dizer “eu não vou porque estou com uma dor de dentes”. Em tempos mandou dizer que se quiséssemos sabíamos onde era a junta. Não temos necessidade de mendigar, porque considero que uma junta de freguesia tem uma função pública. São eleitos para estar lá, estão a gerir o nosso dinheiro. Por isso, têm a obrigação de estar disponíveis, abertos, compreensivos e receptivos a dialogar com as instituições de utilidade pública, como é o caso do Padroense. Acho bem que ajude o Senhora da Hora, que é um clube amigo, acho bem que apoie o Núcleo Desportivo da Senhora da Hora, como sei que recentemente ajudou, que é uma colectividade que, comparada com o Padroense, é simbólico na sua dimensão. Então e nós não existimos? E quando foi a nossa tomada de posse não podia, pelo menos fazer um telefonema a desejar felicidades? Nem que não nos dessem nada, mas pelo menos uma palavra, o que já demonstrava alguma intenção.

 

 

Por: Fernando Silva Pinto em 2003/9/5 @ 08:40 in Jornal de Matosinhos 

 

 

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