Tomada de posição: Narciso Miranda assume perante cerca de 500 pessoas

Padrão merece ser freguesia

 

Esta é uma aspiração bem antiga da população que vive no Padrão da Légua. No limite de quatro freguesias, esta gente vê-se longe de todas elas e ávida de ganhar o seu próprio espaço no mapa político do concelho. Uma luta que já vem de tempos bem idos. Decorria o ano de 1964 quando se falou no assunto seriamente pela primeira vez.

 

Mas só vinte anos depois (em 1984) é que se concretizaram algumas dessas vontades, com a entrada na Assembleia da República de uma petição para a elevação a freguesia. Por esta altura, tudo parecia estar no bom caminho para que o Padrão da Légua ganhasse o estatuto que tanto ambicionava. A população apoiava quase a cem por cento esta elevação. Para além disso, a localidade respeitava praticamente todos os critérios requeridos por lei para a elevação a freguesia.

 

Tudo parecia estar a correr pelo melhor. Mas, de um momento para o outro, o processo emperrou. E, até agora, não mais se desenvolveu. Isto por causa dos pareceres das restantes juntas de freguesia. É que para o Padrão da Légua se tornar freguesia S. Mamede de Infesta, Senhora da Hora, Leça do Balio e Custóias têm de ceder território seu. Nunca se mostrando publicamente contra, os autarcas das quatro envolvidas faziam depender sempre o seu aval do definido pelos outros. Como nunca ninguém deu o primeiro passo, o processo parou por ali.

 

Na década de noventa, a questão volta novamente a ser levantada com algum fervor e é levada a uma nova associação que se tinha criado então: a Associação dos Amigos do Padrão da Légua. Não virando a cara à luta, os dirigentes desta nova associação encetam diálogo com todas as partes envolvidas neste processo: Juntas, Assembleias de Freguesia, párocos, colectividades e até a Câmara Municipal de Matosinhos. Individualmente, ninguém se mostra contra. Mas, na hora da verdade, volta o impasse. E é isso que faz com que o Padrão da Légua ainda não seja freguesia. É que teria de tirar território a Custóias, Leça do Balio, Senhora da Hora e S. Mamede de Infesta.

 

Este núcleo populacional, com uma entidade própria e independente das quatro freguesias a que pertence, tem visto a sua pretensão a ser constantemente adiada. Uma luta que, de tempos a tempos, ganha um novo alento. E foi um novo alento que surgiu no passado sábado, na festa da comemoração da subida do Padroense FC à 3ª Divisão Nacional (com pormenores da festa no caderno de desporto do MH). É que Narciso Miranda reconheceu, perante cerca de 500 pessoas, que o Padrão da Légua merecia já ser freguesia, pela sua entidade própria. Narciso Miranda não prometeu fazer algo para desbloquear este processo. No entanto, deixa no ar uma oportunidade para que as gentes do Padrão da Légua voltem a tentar lutar pela sua ambição. Um sonho que já perseguem há quarenta anos.

 

Opinião das Juntas de Freguesia

 

À hora de fecho desta edição, o Matosinhos Hoje tentou contactar os presidentes da junta de Custóias, S. Mamede de Infesta, Leça do Balio e Senhora da Hora (com este último não conseguimos contacto). A principal ideia que fica das declarações de todos eles é que há necessidade de se sentarem todos os interessados à mesma mesa para que sejam apresentados os argumentos de parte a parte. Nunca é posta em causa a legitimidade da população do Padrão da Légua de querer que a sua localidade seja freguesia.

 

Para José Tunes, por exemplo, a questão não se resume ao Padrão. "Acho que é um erro político criar ainda mais divisões. O País já está retalhado o suficiente. Actualmente, as juntas têm pouco poder e quase nenhuma autonomia financeira. Se dividirmos mais o País pior fica." Sobre a afirmação de Narciso Miranda, o Presidente da Junta de Freguesia de Custóias salientou que esta foi a manifestação "de um desejo do Presidente da Câmara que tem de passar pelo consenso entre as juntas."

 

Igual opinião demonstrou António Moutinho Mendes. "Ele é o Presidente de todos os matosinhenses e politicamente pode ter essa opinião." No entanto, o Presidente da Junta de S. Mamede de Infesta lembra que o assunto já foi discutido em Assembleia de Freguesia e que o parecer não foi muito favorável. "Matosinhos é um concelho relativamente pequeno e já está dividido em dez freguesias. Não discuto a legitimidade de quem defende a formação desta nova freguesia." Moutinho Mendes mostra-se, no entanto, reticente. "No meu programa eleitoral, com o qual fui eleito, não falei sobre apoiar a criação desta freguesia. Por isso, também não posso trair a confiança desses eleitores que me elegeram." Mas, a porta para o diálogo está aberta. "Nada impede que nos sentemos à mesma mesa para cada um expor as suas razões."

 

Já Francisco Araújo mostra-se mais aberto à formação desta nova freguesia. "Não sou contra nem a favor. Se a população quer realmente essa freguesia deve manifestar dessa vontade nos locais próprios. Eu só tenho de zelar pelos seus interesses." Uma das sugestões do Presidente da Junta de Freguesia de Leça do Balio é a realização de um referendo que defina oficialmente a vontade da população. "Aí, se for interesse da população, assim será. A atitude da Junta vai ser o espelho da vontade da população." O assunto está novamente na ordem do dia. No entanto, o consenso não parece existir. Assim, entre o desejo de Narciso Miranda e a sua concretização vai um longo caminho.

 

 

Por: Laura Vieira in Matosinhos Hoje edição de 19-05-04

 

 

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