Cadeia vende pão feito pelos reclusos

 

Na Cadeia de Custóias pode-se agora comprar pão, vários tipos de alface, ervilhas, favas e até pequenos bancos. Estão à disposição na loja criada junto à zona de visitas e são o resultado do trabalho de alguns reclusos do estabelecimento. Diariamente saem mais de sete mil pães dos fornos ali instalados, estando também para breve, a execução de doces. No interior da Cadeia de Custóias o cheiro a pão fresco paira todos os dias no ar. Desde que entrou em funcionamento, em Setembro do ano passado, o sector da panificação tem desencadeado uma nova dinâmica no espaço.

 

Os catorze homens que, durante a noite, produzem o pão não têm mãos a medir. Uma ocupação que, além de ajudar a que o tempo passe mais rapidamente, ajuda a criar receitas para a instituição. "A empresa que, diariamente, confecciona a alimentação no estabelecimento fica com o pão", revela o subchefe Valente, responsável pelo sector oficinal. A par da produção nocturna, durante o dia outros reclusos - 12 - dedicam-se ao curso de panificação. "Durante a manhã têm as aulas teóricas e, de tarde, a parte prática. Aprendem a fabricar vários tipos de pão", afirma, acrescentando que, com a padaria, "obtém-se formação, ocupação e receita". Uma formação que, a par de muitas outras a decorrer no estabelecimento, permite, posteriormente, um acesso facilitado ao mercado de trabalho.

 

No exterior, na loja inaugurada no final de 2002, vende-se o resultado de alguns dias de empenho, como alfaces e bancos de madeira, entre outras coisas. E também pão. "Vendemos o pão a cinco cêntimos cada. As pessoas da redondeza vêm comprar. Outras, que saem da visita, já levam o pão para casa", diz o subchefe Valente. Fernando Araújo, de 38 anos, e Daniel Pinto, de 25 anos, são os dois reclusos, em regime aberto voltado para o interior, que estão na loja desde a sua abertura. "É um trabalho gratificante, pois convivemos com várias pessoas", refere Fernando Araújo. Dos 350 pães que todos os dias chegam à loja não fica nenhum no final do dia. "Temos já clientes fixas", conta, ao mesmo tempo que mostra também a alface frisada e a lisa, produtos biológicos. "Brevemente, haverá manjericos", acrescenta.

 

Cerca de 600 ocupados

 

"Procuramos conceber a prisão não como um sistema fechado, mas sim como uma interface com a comunidade envolvente. A nossa loja permite que essa ideia se concretize", refere, por sua vez, Hernâni Vieira, director do estabelecimento. Ainda de acordo com o responsável, "a nível nacional, Custóias é a cadeia com maior número de pessoas ocupadas". Paralelamente ao curso de panificação, tiveram já início as aulas teóricas do curso de pastelaria. Por isso, dentro em breve, novos odores e sabores invadirão o espaço. Com o apoio do CPJ -- Centro Protocolar de Formação Profissional para o Sector da Justiça, que coloca em Custóias vários formadores, outros cursos estão a ser ministrados em Custóias. Metalomecânica, mecânica, informática, teletrabalho, manutenção de edifícios, jardinagem e horticultura, entre outras, são algumas das áreas de formação. "Há sempre muita adesão para os cursos", diz, entretanto, o subchefe Valente, acrescentando que "os reclusos, ao longo da sua permanência no espaço, têm hipótese de fazer várias formações, saindo habilitados para diversos empregos". A matéria entretanto aprendida é colocada em prática, consoante o curso, no próprio estabelecimento prisional. Por exemplo, os frequentadores do curso de jardinagem mostram o que aprenderam nas zonas ajardinadas ali existentes. Outros reclusos do Curso de Qualificação Mecânica poderão reparar algumas viaturas de funcionários, sempre que seja necessário.

 

Nas oficinas de Custóias, o trabalho é variado, havendo ainda a secção de carpintaria, de tipografia e de reparação de calçado, entre outras. "Temos também o trabalho pago à peça e solicitado por várias empresas", conta. A este nível, recentemente, uma empresa do ramo da cortiça encomendou 20 mil rolhas, montadas e envelhecidas em Custóias. De um total de cerca de 1200 reclusos -- 50 são mulheres -- metade está ocupada, entre outras coisas, com os cursos, com a limpeza geral do edifício, com a escola -- frequentada por vários alunos que têm aulas dadas por professores de estabelecimentos de ensino de Matosinhos -- e com desporto. Só nas oficinas encontram-se um total de 320 homens.

 

Presos transferidos para Paços de Ferreira

 

Durante este mês vão ser transferidos de Custóias 300 reclusos para os novos pavilhões prisionais de Paços de Ferreira. Segundo Hernâni Vieira, "o estabelecimento prisional está sobrelotado". E sublinha: "A população máxima é de 720 reclusos e, actualmente, temos cerca de 1180, a maioria da zona Norte". Os indivíduos que agora irão para Paços de Ferreira, de acordo com o director, "são todos condenados com penas até aos 25 anos". E lembra: "Custóias é uma das maiores cadeias de condenados do País". Além da saída das três centenas de homens, prevê-se que, até ao final do ano, saiam também as 50 mulheres que estão em Custóias. "O Estabelecimento Prisional Feminino do Norte, em Santa Cruz do Bispo, está quase pronto", diz o responsável. A ala feminina, segundo está previsto, dará, então, lugar a camaratas e instalações de guardas.

 

 

Por: Rita Senos in Matosinhos Hoje (Online) Edição de 04-06-2003

 

 

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